Sábado, 10 de Dezembro de 2005

Metade de mim

alf_Moon.jpg

Acordo de um sono demasiado pesado.

Levanto-me no desequilibrio frio da manhã,na luz branca.Sinto que tenho de pegar no meu proprio corpo ao colo para me levantar...sinto-me demasiado leve.Levo-me à casa de banho e na soleira da porta sinto um vómito.
Odeio quem vejo no espelho,alguém que eu não conheço a desfazer-se.
O meu corpo treme mas não de febre...de medo.

E mesmo assim consigo vestir-me e viver um dia.Mais um dia na realidade.

Passei este dia aterrorizada,pretendendo uma calma que não é a minha.Antes havia a máscara que era a unica protecção.Distorcia tudo o que a atravessava e diminuia a intensidade da empatia e do raciocínio,era uma mistura de ódio,falsa coragem,orgulho,violência...
Agora já não existe,agora qualquer um me pode ver.Exactamente como sou.E não existe nada mais desconcertante do que alguém que nos consegue ver.
Agora mais do que nunca quero fechar-me no meu próprio corpo.Sinto que qualquer pessoa me pode levar à loucura facilmente...quem quizer pode vir e destruir-me.

Sofri por alguém me conseguir ver e por me dizer aquilo que sou .A verdade é que não consigo deixar de ser...e isso faz-me sofrer todos os erros que ainda não nasceram.Faz-me lembrar os erros que já me mataram uma e outra vez sem piedade.
Alguém olhou para mim hoje e me disse que via as feridas,assustei-me,por uns momentos pensei que apontaria para o meu corpo e mas mostraria.Tal como são.
Vi o reflexo de um animal que morre nos olhos dele.Olhos como eu nunca vi.
Andei pela cidade ao pôr do sol,já não me lembrava da verdadeira solidão.Sentei-me num banco de jardim,nas cores escuras,nos azuis,nas primeiras estrelas.Num salão monumental de vultos e colunas negras,a céu aberto.
Ao longe oiço pavões e os seus chamamentos.
Lentamente os candeeiros começam a acender-se e tudo fica de uma côr alaranjada.O que está mais perto de mim depressa fraqueja e se apaga.Sinto-me nele e agradeço-lhe pela honestidade e pelo gesto.
Ao fundo deste salão está uma porta monumental iluminada como se ela própria fosse o pôr do sol,a contra luz vejo dois vultos que se juntam e o tempo pára por um momento,separam-se outra vez e juntam-se,noutro momento ainda mais doce...apenas dois vultos negros todo o mundo não existe naqueles momentos.
Dou conta de mim e afasto o olhar e o pensamento.Ao pé de mim um pai brinca com uma criança pequena,fico nos sons deles mas também o som se esbate e desapareçe.
Levanto-me e começo a andar,mesmo sem alma no corpo.No caminho ando levemente,porque sinto o coração a enterrar-se debaixo de cada passo meu.O meu peito está vazio...e lembro-me de uma coisa de que não me lembrava hà muito tempo.As palavras passam pela minha boca fechada,maquinalmente,como se me tivesse esquecido delas dentro de uma mão fechada.Saboreio-as levemente,lembrando-me do que senti quando as li pela primeira vez.

''Jejuou catorze dias.Jejuou vinte e oito dias.A carne desapareceu das suas pernas e das suas faces.Nos seus olhos dilatados refectiam-se estranhos sonhos...O seu olhar gelava quando encontrava mulheres;os seus lábios arrepanhavam-se de desprezo quando passava por uma cidade de gente bem vestida...mas nada lhe pareceu digno de um olhar que fosse,era tudo mentira,tresandava tudo a mentira.A felicidade e a beleza mais não eram que ilusões dos sentidos,estava tudo condenado a apodrecer.
O mundo tinha um gosto amargo.A vida era dor.
Siddartha tinha um unico objectivo:despejar-se,ficar vazio de sede,desejo,sonhos,prazer e mágoa.Deixar o Eu morrer.Não ser mais Eu,conhecer a paz de um coração vazio,conhecer o pensamento puro...''

Perdida nos meus passos e nestas memórias de antigas,sensações e impossibilidades inevitávelmente chego a casa.Deito-me enrolada e assim fico,como se fosse feita de pedra...o medo e a ansiedade cansam-se e morrem.Sobro eu,ou o que resta.Não quero pensar ao que sobrevivi ontem,recuso-me.
Não durmo mas isso não me impede de acordar outra vez,meto-me no carro,sinto-me a regressar à cena de um crime.Fujo de mim.
Quando me encontro estou na praia a olhar para as luzes da cidade que arde.
Musica...Coiote 100.7 das dez às onze da noite.Por uma hora posso ter uma alma emprestada.

Volto...para o espaço exíguo dos meus pensamentos.E alucino aqui a horas estranhas.Estou demasiado cansada.Não me quero lembrar...nunca mais....

Aware
publicado por aware às 02:24
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2 comentários:
De a 11 de Dezembro de 2005 às 10:52
Estas viagens que faço contigo ao interior dos sentimentos são de uma rara beleza. A tua escrita é leve como a alma, é sublime! BeijoMaria Papoila
(http://apapoila.blogs.sapo.pt)
(mailto:msantosilva@sapo.pt)
De a 10 de Dezembro de 2005 às 08:06
Parabéns pelo teu blog. Gosto muito da maneira que escreves. Continua sempre. BjsJoao
(http://outofafrica.blogs.sapo.pt/)
(mailto:jo221@mweb.co.za)

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