Quinta-feira, 10 de Novembro de 2005

panic attack

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Ontem à noite tive um ataque de pânico...

Já não tinha nada parecido há muito tempo,nada assim tão forte.É tão estranho,desde pequena quando me deito à noite às vezes tenho uns segundos em que me lembro que tenho medo de morrer...um suor frio que me faz fechar os olhos com força durante uns segundos,e depois passa.Acho que isto é parecido,mas também muito diferente.
É muito mais poderoso,é uma reacção muito física e inesperada a um pensamento...
Sempre ouvi dizer que o medo é irracional,pelo que conheço o medo é sempre racional,existe por uma razão mesmo que no momento em que o sentimos não saibamos vê-la,ou simplesmente estejamos ofuscados pelo que sentimos.
Suponho que 'irracional' nessa expressão seja um sinónimo de 'incompreensível' ou 'sem razão aparente'...de qualquer das maneiras acho que o medo pode ser compreendido e é o efeito de uma causa...nem que ela seja simplesmente mecânica,uma descarga involuntária de químicos no sangue (e mesmo aí podemos procurar razões físicas).

Pior é ignorar a razão...ignorar-desconhecer e ignorar-ignorar(não lhe encontro sinónimos).

Não gosto de falar nisto,fico sempre com a sensação de que as pessoas acham esta informação um excesso de humanidade.Um excesso de informação de qualquer das maneiras...ninguém quer ouvir notícias más,particulamente as dos outros.Infelizmente não quero isto a viver dentro de mim seja sobre que forma,prefiro escrevê-lo,prefiro dizê-lo...

Faz-me pensar sobre a honestidade...faz-me lembrar um episódio de quando era pequenina:

Começei a falar quando era muito pequena,devia ter três ou quatro anos,(não sei bem,a minha mãe hà de saber melhor foi ela que me contou isto...) e para além de ser muito precoçe em termos de pronúncia e vocabulário...e desenvoltura... tive muito pouco cabelo até bastante tarde o que em conjunto com umas grandes bochechas dava o aspecto de ser ainda uma bébé.Isto tudo por causa de um 'incidente' que se deu nessa altura num café perto da minha casa...A minha mãe levou-me com ela para beber a bica e aparece uma senhora que se enamorou de mim,como fazem as senhoras fequentemente quando vêem uma criança.Chegou ao pé de mim,e da minha mãe sorridente e babada,e disse-lhe 'Que menina tão bonita'...vira-se para mim e começa a falar comigo em lingua-de-trapos (sons de bébés) com um grande sorriso.O que ela não estava à espera era que eu já soubesse falar e muito menos que me virásse para a minha mãe e lhe dicesse muito surpreendida alto e bom som 'Oh mãe!Esta senhora é parva...não sabe falar!!!'
Claro...à minha mãe fugiu-lhe logo o sorriso,e ficou num interessante tom vermelho.Verde ficou a mulher!Indignadíssima...só conseguiu dizer muito amargamente que eu parecia muito mais bébé.E não demorou muito a sair do café,a passo duplo.

Isto para falar da honestidade... e especialmente da honestidade excessiva,muitas vezes encontrada nas crianças,e que é lentamente substituida com o crescimento por conceitos mais sofisticados e dinâmicos como o cinismo e a hipocrisia.
Com resultados que até hoje questiono...
Acho que nunca hei de saber ao certo de que é feito esse óleo que faz as rodas da sociedade manterem o seu movimento perpétuo.Sei sim que sempre senti que tenho de me afastar do caminho dessa máquina cortante a que sempre atribuí a desumanidade característica das máquinas...como se não fosse feita pelo que de mais humano existe nesta terra.
Estranhamente ao mesmo tempo sempre amei a humanidade,as pessoas...a ideia do que podem ser e a surpresa constante do que são realmente.Os seus sonhos,pensamentos e personalidades...as suas histórias.
O mais precioso das suas vidas.
A humanidade como um ser anónimo e abstracto substituiu durante muitos anos qualquer presença física no meu mundo.Uma qualquer entidade num desenho mental a que ia anexando opiniões,e pareceres pseudo-intelectuais de quem observa mas desconhece o interior do que vê,como pequenos post-its amarelos.

O que aconteceu ontem foi sobre isso mesmo,sobre o medo de confiar noutro ser humano.Parece surreal mas é verdade.
Levou-me directamente à memória vívida do meu ultimo desastre...o pesadelo de encontrar uma pessoa que não sei explicar nem evitar e de quem não me consigo proteger.

Eu mesma...

E nesta situação,qualquer pessoa me pode destruir...basta querer.
Sinto-me vulnerável a todas as pessoas do mundo e às suas piores intenções...todos os momentos da minha vida passam a ser os que precedem o seu fim.O Apocalipse.
Sinto que basta que me distraia para que tudo seja destruido.Tive um ataque de pânico ontem simplesmente porque me senti bem...
Senti-me bem como já não me sentia à meses durante dois dias ou três.Quase me distraí do meu sofrimento,quase me esqueci do suspanse e do terror.De todas as vezes que alguém me magoou...quer se tratásse dum gesto pequeno ou grande,propositado ou sem querer.Quase me esqueci que me alguma vez me fizeram mal...ou que isso pode acontecer no momento seguinte.

Quando me lembrei dessa possibilidade,foi como se se abrissem as portas...ataque de pânico claro que é um auto diagnóstico,mas não me lembrei de mais nada.Fui,como sempre,à procura de definições...

'Um ataque de pânico é um período de intenso medo ou desconforto, tipicamente abrupto e durando, geralmente, não mais do que trinta minutos. Os sintomas incluem tremores, dificuldade em respirar, palpitações do coração e tontura. A desordem difere de outros tipos de ansiedade na medida em que o ataque de pânico acontece de forma súbita, parece não ter sido provocado.Muitos dos que sofrem de ataques de pânico relatam medo da morte, um "estado de loucura" ou uma perda de controle das emoções e do comportamento. Cerca de dez por cento das pessoas saudáveis sofrem um ataque de pânico isolado por ano.'

Foi o que encontrei,entre muitas outras explicações...mas depois de acordar no dia seguinte às duas da tarde e de passar o dia apagada... o que me fez lembrar na realidade foi de uma passagem num livro emprestado interessantíssimo que estou a ler e que acho ser uma descrição muito mais fiel.Não sei ao certo o que se passou ontem nem como se chama,mas sei que foi algo parecido a isto:

'...Como,segundo disse Nietzsche,o homem é capaz de suportar quase tudo sempre que encontre um porquê,estamos permanentemente ocupados a fabricar um porquê invulnerável.Quando essa construção fracassa,percipitamo-nos de cabeça no horror,na loucura,na experiência do nada. ...'

aware
publicado por aware às 01:13
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6 comentários:
De a 11 de Novembro de 2005 às 21:51
Esse pânico acontece mais do que se possa imaginar e até tem nome pomposo..."Depressão do Sucesso"... ainda bem que foi temporário e acordaste curada...BeijoMaria Papoila
(http://apapoila.blogs.sapo.pt)
(mailto:msantosilva@sapo.pt)
De a 11 de Novembro de 2005 às 06:08
Bem, li atentamente tudo o que escreveste e digo-te fiquei boquiaberta. Nao sabia que tinhas assim tanto pavor. Tens medo de ser feliz. Sabes eu vou-te dizer uma coisa que eu pus na minha cabeca quando estava assim tambem. Quando temos medos, pavores ficamos mais fracos e vulneraveis aos olhos desses medos. Por isso temos de tentar ser felizes e dizer a esse medos que eles nao nos vencem. Sem que e facil dizer mas eu tambem o fiz, e digo-te e dificil, mas nao e impossivel.
Adorei a historia que contaste sobre a tua infancia. Mesmo muito inteligente, pois quando somos criancas as pessoas, principalmente as mais velhas,fazem aqueles sons como se nos fossemos anormais. Amei mesmo. BeijinhosAngela
(http://anjodourado.blogs.sapo.pt)
(mailto:angelkalee@hotmail.com)
De a 11 de Novembro de 2005 às 03:15
Venho aqui porque não consigo dormir e nunca espero que cá estejam novas pegadas das pessoas de quem gosto,mas de vez em quando sou surpreendida é o suficiente para não me sentir sozinha,nestas horas desertas.Obrigada por estarem aí,a vossa empatia e timing são sempre uma surpresa,sempre um salva-vidas,cada um á sua maneira.Três abraços apertados,espero que os consigam sentir********:)...e um beijo ao joão ausente que me fez companhia quando isto aconteceu:*aware
(http://pilgrimhearts.blogs.sapo.pt)
(mailto:jani_fullmoon@hotmail.com)
De a 11 de Novembro de 2005 às 02:06
Bem.. revejo-me em muitas das coisas que escreveste. Eu sou daqueles esperançosos por uma humanidade mais justa.. de pessoas mais honestas e humanas.. em parte da não agressão. Às vezes tenho um ar tão imperturbável e no fundo, numa parte mais inocente, sofro por ver que a realidade mesmo ao pé de mim não é assim perfeita como eu desejo e quero. Os ataques de pânico sei muito bem o que são e como são por experiência própria, um pouco resultado de experiência traumática que na conjugação de factores especiais podem provocar isso. Mas todos temos as nossas fraquezas.. se bem que as causas pensadas para que tal aconteça acabem por não ser de uma origem negativa mas sim porque desejamos o desejável e receamos o incompreensivel. O que importa é buscar sempre a felicidade e não ter receio dela, porque essa existe sempre, escondida em qualquer canto, no meio das maiores adversidades, há sempre alguma coisa que nos faz feliz. ******Ser-se em Palavras
(http://www.longtakk.blogs.sapo.pt)
(mailto:golden_sky_@hotmail.com)
De a 10 de Novembro de 2005 às 22:05
não que não tenha o que escrever (isso, tu sabes muito bem, tenho sempre.). mas faço minhas as palavras do samuel (aqui o rapaz de cima ;D): beijo*Karura
(http://www.blackpenguin.blogs.sapo.pt)
(mailto:anywherebuthome@gmail.com)
De a 10 de Novembro de 2005 às 19:17
Amiga, embora não tenha sido tão assíduo como o habitual, continuo a frequentar este espaço que sempre gostei de ler. De TE ler, apesar de nem sempre comentar, tenho estado presente =)
Relativamente ao post...parece-me que o ataque de pânico se deveu ao facto de não conseguires suportar o pensamento de ser feliz, nem que seja por um ou dois dias, sem ter medo de perder ou te magoar.
Sabes o que penso, mais vale bater com a cara no chão e sairmos magoados mas ao menos sabemos que vale a pena. Cada segundo de felicidade vivido e bem estar ajuda a superar a queda. Afinal, tudo isto faz parte da vida. Um grande Abraço!*Samuel
(http://www.samuelcoelho.blogspot.com)
(mailto:unklesamuel@hotmail.com)

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