Quarta-feira, 20 de Setembro de 2006

In definido



Pensei que já me conhecesses.

...disse ela numa voz calma,enquanto olhava pela janela.

Houve um pequeno silêncio. Julguei ver uma sombra de aborrecimento passar-lhe pela cara, mas ela voltou-se antes que pudesse ter a certeza. Pareceu-me um mundo aquele pequeno silêncio, não lhe conseguia distinguir as feições mas sei que olhava para mim com aquele sorriso indecifrável que já lhe tinha visto tantas vezes.
Desta vez no entanto era diferente, talvez por causa do jogo de luz ...
Enquanto olhava para aquele perfil a contra-luz  pensei no que seria conseguir entrar em silêncios como aquele.

Estás a sonhar outra vez...

Uma voz forte que quase não reconheci como sendo dela. No momento em que a voz me tocou a imagem da minha própria mão a afastar uma pesada cortina de veludo desapareceu. O acordar dessa divagação aparentemente tão inocente deixou-me num constrangimento que me esforcei por esconder. A quase essência dos bastidores ainda na ponta dos meus dedos...pareceu-me uma eternidade até conseguir descobrir o que dizer.

Será possivel conhecer totalmente uma pessoa?

Ela suspirou...Seria possível, depois de tudo... afirmar que não conhecemos?

Antes de me conseguir criticar por ter feito afinal uma pergunta tão comum, tão gasta apercebi-me do que foi dito, daquilo que evocava e rendi-me ao poder daquela resposta. Sentei-me numa cadeira próxima e reparei pela primeira vez na grande estante de livros que estava atrás de mim. Questionei silenciosamente tudo aquilo que vivemos, tudo o que nos foi mostrado e a duvida não desapareceu.
Era afinal uma pergunta importante...
Olhei para uma fotografia emoldurada que estava numa mesinha ao meu lado, agarrei nela e reconheci duas caras. Invadida pelo que significavam não as fixei, mas fiquei sim no espaço entre elas, vazio.
Soube que aquele era o meu espaço.
Mas eu não estava lá...e isso levou-me, mais uma vez, à implacabilidade da minha própria existência. Ao ónus de toda uma vida e pela primeira vez senti que isso não me envelhecia nem me esgotava...mas que me enobrecia.
 
Como este também aquele momento passou, agora a luz branca daquela sala já não existe ...conheço cada vez melhor a solidão.

Adormeço ainda com o reflexo dela no vidro das janelas, essa memória, exactidão de todos os seus traços, uma folha de luz ...um fragmento.

Um murmurio...


Aware
publicado por aware às 22:31
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Quarta-feira, 13 de Setembro de 2006

Om



Alguém disse...que se faça silêncio.

As nuvens pararam, nesse mesmo momento.

Ficaram suspensas, como almas que antecipam a próxima palavra que as faça viver. O tempo não parou...apenas susteve a respiração e então, lentamente suspirou.
Contendo tudo e abdicando de tudo, num único movimento.

"Le roi est mort, vive le roi"

Olho para trás e reparo pela primeira vez que este não é nem nunca foi um diário. As palavras, as imagens deixam um rasto, são ecos...sei o que é.
A palavra, o nome, está entre os meus lábios cerrados, sinto-o na ponta dos dedos como uma flecha pronta a disparar...e lembro-me duma admoestação antiga..."proferir uma palavra é matá-la."

Não há um dia que passe sem que eu questione a verdade dessa afirmação. Olho para as minhas próprias palavras...a antiga expressão volta..."pregar verdades ao papel antes que voem."
O que me dizem as minhas próprias palavras?

Agora que vejo para além da tinta...para além das formas, para além dos sons.

Essa expressão preocupa-me, olho para a colecção, as joias, as cores, animais alinhados entre pontos finais, alfinetes. A imaginação será  movimento? As asas, demasiado leve, etéreo...etér...estáticas. Êxtase.

Este é um sitio parado no tempo onde as realidades ficam, onde a morte e a vida são inseparáveis. Eu sei o seu nome mas ainda não o pronuncio...quero que viva enquanto duvido. O som do coração e o cheiro da terra molhada.

O som entrou pelas janelas abertas, contínuo...chuva.


Aware
publicado por aware às 22:27
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Quarta-feira, 6 de Setembro de 2006

Impasse



Chamei as nuvens e elas vieram.

O meu espírito cede sob a leveza das suas sombras, o corpo arde...de febre, e talvez pela imperfeição de uma fé demasiado frágil.

Fico na soleira da porta e espero. Dentro do que me parecem ser os intermináveis dias do abandono.

Mentiras...falsas verdades, falsos deuses tentam um regresso dividindo a alma em mil. Todas declaram e desesperam realidades parciais e cegas. Esquecem-se de que recentemente lhes deslizou dos ombros a sua invisibilidade. Ridiculo e grotesco espectáculo...

 ...esse barulho asfixiante que ainda me separa do mundo.

A febre dá-me vontade de chorar, mas as lágrimas não correm, tremem no limite como eu, dentro de olhos abertos e incandescentes.

''A recordação da felicidade já não é felicidade; a recordação da dor ainda é dor.''
           Byron
 
Estas são as únicas palavras que veem ter comigo no escuro enquanto a luz argentea se espalha lá fora molhando os passeios.

Regresso ao que fui e ao que nunca fui...num impasse aparentemente tão inquebrável como a própria febre.


Aware
publicado por aware às 21:23
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