Segunda-feira, 27 de Novembro de 2006

Ouro




Mãos fecham-se nas minhas mãos...

...e a estrada continua.


Mesmo quando a minha alma é arrebatada pelo silencio elas seguram-me. Sinto-lhes a força nos meus cotovelos e antebraços enquanto me guiam, como quem guia uma criança, como quem guia alguém cego...ou doente.

Sinto-lhes a alma na ponta dos dedos.

Tão quente como os seus sorrisos...enquanto olho para a diferença de cada olhar e me pergunto de onde virão todas essas palavras.

As palavras que me seguram.


Depois de tanto tempo sem palavras sinto-me uma estranha nesta lingua que já foi o meu corpo...tal como não reconheço e descubro este corpo que sempre foi meu. A alma foge e regressa, muda e flui, seguram-me com constância, enquanto me lêem pelos olhos.

Já não lhes consigo mentir...e isso faz-me tão feliz.

Olho para o céu e aprecio cada segundo como se fosse o último, conversando com a morte sobre os segredos da vida, apreciando o ouro que as minha lágrimas compraram. Sentindo sabor metálico do medo na boca...falando a minha dor para que morra no abraço do seu amor, tão surpreendente como insondável.
Sinto o seu pulso em mim quando fraquejo...erguem-me quando mais temo, quando tropeço e caio. Sorrindo sempre, mas só pelos olhos...

...só pelos olhos.

A terra segura o rio que passa e permanece, não sei de onde vem, nem para onde vai...não é o mesmo e é o mesmo ainda assim.

Já nada é absoluto...
                               a alma regressa.

Está cada vez mais próximo o momento em que caminharei sozinha e por mim...em que correremos juntos lado a lado em risos perdidos de tardes de crepúsculo, como os sonhos que brincam com a minha alma antes de adormecer.

Acordo mais uma vez...e essa é a minha única alma.


Aware
publicado por aware às 22:19
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Domingo, 19 de Novembro de 2006

Sleepwalker




O mundo agarra-me pelos ombros e sacode-me com violência...


Fecho os olhos com força.

Anseio por momentos de solidão e silêncio apontando pensamentos soltos na bainha da minha alma...quando chegam finalmente sentam-se ao meu lado e fazem-me companhia olhando para a estranha multidão das minhas horas.
Abro os olhos e já não os consigo fechar... agora e para todos os momentos que reclamam a presença imediata da minha alma. Todas as caras me olham de dentro do imediato e desejam a minha voz no agora.

Abro a boca mas tudo o que sinto é o frio da noite, não existe o som daquilo que ainda não...


Algo que se esconde de mim, uma palavra talvez, a resposta...o nome.

A inevitabilidade do momento leva-me aos lábios entreabertos uma pequena ampola de vidro, com uma devoção pura e uma candura que o meu terror acha quase doentia. A soma de todas as emoções...
Tão limpidas e concentradas como um veneno, sinto-as entre os lábios, descendo pela minha garganta, tomando o meu corpo que adormece num caos indecifrável e apocalíptico.
Pelos olhos abertos passam sonhos estranhos enquanto a realidade tenta extrair à força o nome oculto que não consegui capturar sozinha. Uma por uma são abertas todas as portas por este soro-da-verdade indiscriminado e brutal, numa nudez para além da génese...

O corpo transparece, demasiado cheio e demasiado fraco para compreender aquilo que o domina...olho através da pele translúcida, vejo muitas mãos dentro do meu peito. Mexem-se à volta do meu coração numa cadência lenta mas precisa, tocam-no para o tentarem entender, apertam-no para o tentarem sossegar...em vão.

A palavra permanece oculta.

O desapontamento corre silencioso pela minha cara quando as diferentes vozes cessam... num gesto automático e irreflectido limpo-a e todos os apontamentos se diluem...todas as palavras se perdem e os pensamentos esbatem-se numa mancha indistinta.

Olho para ela longamente, enquanto o mundo corre pelo meu corpo numa calma ensurdecedora.



Aware
publicado por aware às 23:31
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Terça-feira, 14 de Novembro de 2006

Red



As tuas palavras gravitam à minha volta como laços de seda.

Um murmurio quente.

Envolvem o meu coração que bate mansamente e o meu corpo que esfria. Endurece à medida que o ultimo ar lhe escapa...morre.

Quando a alma se começa a separar do corpo que sossega, quando a força se dilui e acaba, o som de sedas enche tudo...

Perturba o silencio enquanto desliza e amarra numa velocidade inexprimível.

                Aperta-me.


Seguram-me dentro de mim com força...quase não o suporto, prendem a alma que foge ao corpo que morre. Dentro da minha carne sinto-o...e a dor reacorda. Seguras a minha cara entre as mãos docemente e não compreendes a sua brancura nem porque azulam os meus lábios.

Enquanto o apertas de encontro ao meu peito...insciente.



"All night long she sang and the thorn went deeper and deeper into her breast...
And the rose became deep red, like the red of the sky at sunrise; even the heart of the rose was deep red."


Aware
publicado por aware às 23:02
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Domingo, 5 de Novembro de 2006

Luz e solidão.



Fico nas horas que passam devagar, ouvindo o som continuo da chuva que não vejo.

Dentro de mim aguardo. Pelos que não me vêem...

Sento-me no calor do meu coração e entre os dedos seguro um pequeno livro. Encontro-me na simplicidade de me sentir dentro daquelas letras.

Relembro o poder daquele encontro e compreendo-o. Foi puro...

Temo pelas pessoas que vivem momentos e neles se prendem.
Por vezes a intensidade da beleza ou da dor capturam uma determinada fracção da nossa alma. Deixamos para trás essa cópia temporal de nós mesmos, sentada, pacientemente na companhia de um momento no tempo. Perdendo um pouco dos nossos olhos e de vista a dimensão da caminhada que continua, porque o nosso corpo nos carrega dentro do presente, inexorávelmente.
Existe quem tente recriar momentos iguais, mas a esse esforço, independentemente da sua força e do seu empenho, só é proporcional uma desilusão.

Não existem dois momentos iguais.

Tal como não existem duas caras iguais.

Prendermo-nos num momento, num único momento, numa única emoção é abdicar de todos os que se seguem e de todos os que o precederam.
Não é sequer permanecer fiel ao próprio momento porque esse é um abraço demasiado estreito. Ao longo do tempo é esse mesmo abraço que desvirtua aquilo que mais queria preservar.
Nada sobrevive sem espaço para crescer e se firmar...para se tornar naquilo que é e perceber que isso em si também significa uma mudança contínua. Ideias, momentos, emoções e memórias não são excepção porque fazem parte de nós. São o material que nos acondiciona, devemos respeitá-lo tanto como ao nosso corpo. Ambos são o barco que nos trasporta através de mais do que conseguimos ver ou imaginar.

Agora, inesperadamente, sinto o valor incalculável da minha solidão.

Quanto mais a minha alma cresce e brilha mais sinto a enorme necessidade de alguém que a veja, e vendo o mesmo que eu que acredite e me eleve.
Poucos são os braços que me seguram, e muitas as almas que duvidam quer porque não amam completamente ou por uma qualquer convenção social que se habituaram a respeitar. Fazem a minha dúvida crescer em vez de a aplacar. Agora que os vejo melhor e os respeito ainda mais sei que tenho de viver completa e por mim.

Independente de tudo o que existe.

Momentos são vividos no tempo presente, totalmente na sua primeira e ultima vez... como nunca e eu não os agarro, quero-os demasiado bem. Correm como a chuva, correm como as letras por entre os meus dedos.


Luz cheia e invisível.



Aware
publicado por aware às 12:48
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Quarta-feira, 1 de Novembro de 2006

Art of Peace



Four

"The Art of Peace is medicine for a sick world.

There is evil and disorder in the world because people have forgotten that all things emanate from one source. Return to that source and leave behind all self-centered thoughts, petty desires, and anger.

Those who are possessed by nothing possess everything."

O-sensei


Inspiro e a minha alma dissipa-se. Dilui-se...uma parte de mim, mil partes de vazio.
Entre cada gota de mim existe um espaço infinito, perfeitamente suave e infinitamente maleável por onde o tempo passa contendo tudo...Tudo.

Todas as caras...únicas e no entanto todas iguais de olhos fechados.

Toda a côr num branco absoluto e logo a sua ausência total.

Todas as estradas, todas as almas, toda a dôr...o Universo.
Existe uma fraqueza neste momento, no preciso momento final da inspiração, o fio de água na crista da onda. Essa fracção de segundo é muitas vezes um vislumbre de medo, a porta pelo qual ele espera para entrar e se consagrar. Atravéz do medo a morte.
Mas se prestarmos atenção a esse fio é o próprio Tempo e é ele que se torna a corda guia, o fio condutor, porque todos os momentos estão ligados, são indissociáveis.

Todos os músculos se começam a contrair, concentrando-se.

Os olhos abrem-se como o cumprir de uma ordem. Todos os fragmentos retornam abdicando do vazio, unem-se, estreitam-se. Trazem o poder que criaram dentro do vazio e esse poder habita a alma que retorna ao corpo outra vez.

Energia pura...Vida.

Só aí tudo se torna Tudo...só aí os olhos começam a Ver.

Aware
publicado por aware às 23:00
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