Sábado, 1 de Abril de 2006

We come one.



Dentro da casa escura ouviram-se os risos entrecortados e os gritos...

Vou voltar!...Vou voltar!

O som absorvido pelo soalho e pelo pó parou no meio da sala escura...mas não morreu. A casa arrepiou-se e no velho cadeirão alguém se mexeu e endireitou, desconfortável, esperando no silêncio, enquanto nas escadas se ouviam os passos descalços, a maçaneta a girar...

A porta abriu-se de estrondo, fugindo à mão de quem a abriu como se estivesse imbuída de vontade própria e tivesse sido apenas uma coincidência que alguém a tivesse aberto naquele preciso momento.

Ficaram imóveis naquele impasse, alguns grãos de pó voaram  na luz que a porta derramou pelo chão. Na escuridão daquela casa sem nome...

Duas silhuetas, um silêncio arrebatador.

Na cadeira o perfil negro, do qual só de distinguiam os ombros e a cabeça, cresceu e levantou-se. Sem fazer um único som voltando-se para a porta...e na porta o outro,imóvel, com o sol pelas costas susteve a respiração, na vontade de quebrar o silêncio.

A voz veio da escuridão. Quebrando-se como vidros, sabendo a pó...discorrendo com a velocidade lenta e liquida do sangue.

Era um poema.

Parecia um poema, porque de memória as palavras saíam-lhe automaticamente com uma estranha entoação...a voz encheu o espaço ocupando tudo, impregnando o chão e as paredes.
No chão dourado os pés descalços deram um passo, a sombra que se lhes colava mexeu-se levemente, outra voz se juntou à primeira, partilhando as mesmas palavras mas numa voz diferente. Leve e quente como um perfume...primeiro desencontradamente, em afagos, quase brincando e depois em  uníssono com uma força maior...carregada de emoção e significado poderosos.

Enquanto o recitam aproximam-se, reconhecendo-se como os opostos que são.

Da mesma pessoa.

As palavras acabam...como todas deviam: com um beijo, pela união das bocas e através delas, as almas. As janelas abrem-se matando o eterno e sobrenatural pôr do sol daquelas paredes.

O azul vem, absolutamente, em rectângulos verticais de céu sem nuvens...no chão resta um corpo. "Rosas a boiar em leite"...

De olhos bem abertos, no novo silêncio inexplorado e germinal.

Olhos de que cor?...da cor do segredo.


Aware
publicado por aware às 21:40
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1 comentário:
De Ser-se em Palavras a 2 de Abril de 2006 às 01:01
Muito bem .. adorei o texto e as descrições.. lembraste quando no inicio falavas sempre muito nas minhas descrições? exacto .. este texto lembrou-me isso .. e também pela musicalidade final:)
Já agora também me fez recordar a história do indio..que dizia que estava dividido em dois .. um cão selvagem e mau de um lado e outro docil e carinhoso do outro .. e depois perguntaram-lhe qual dos dois era mais forte e ele disse que isso dependia só dele .. e de cada pessoa, generalizando, .. porque nós é que decidimos qual deles vamos alimentar para deixar sobreviver e isso se manifestar naquilo que somos connosco e com a vida..
Beijos******

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