Domingo, 9 de Julho de 2006

alfa and omega



Vesti-me de preto e saí.

Ninguém me salvou de dançar sozinha na noite vazia, toda a beleza parece não compensar esta simplicidade. Chego ao ponto de acreditar que não existe gentileza no mundo. Não o ultrapasso, ainda assim, por tão pouco...

Acordei e durante uns segundos o sonho respirou a realidade. Fiquei, com os olhos ainda fechados, absolutamente imóvel, porque sabia que estava na presença do sagrado.
Ao ouvir o som lento da minha própria respiração consegui viver os ultimos nuances de uma emoção sublime.
Naquele momento, em vão tentei acalmar uma felicidade exultante que decerto foi o motivo do acordar. Tentar a captura daquilo que é efémero.
Quantas vezes não o tentei já? Em tudo...

Essa sensação enebriante, escoa-se tão depressa e tão seguramente como a água dentro de uma clepsidra. É precisamente a urgência de conseguir reter uma simples fracção daquilo que escapa que nos acorda defenitivamente, cortando o elo com o outro lado.
Consegui, como consigo sempre, arrebatar uma imagem, uma sombra a que posso recorrer como a uma fotografia, para evocar as emoções daquilo que já passou.

Uma memória.

Abri os olhos e naquela claridade tranquila da manhã revi-o. Estava sentado sobre a arca de madeira trabalhada que tenho no meu quarto. Não tinha contornos, não começava nem acabava, era o Homem, era Deus...era o Sol.
Lembro-me de me deitar sobre o seu peito e foi como se a lua pudesse tocar o sol, depois de uma adoração à distãncia que começou na génese do próprio tempo.
A tranquilidade de regressar a uma casa que já não existe, a uma tarde de infãncia perdida, o sopro da saúde perfeita num corpo cansado e incrédulo. Finalmente poder amar e existir.

A imortalidade através do amor...a perfeição.

Compreendem agora como a minha alma salva o meu corpo e condena a minha existência. Estes são os sonhos pelos quais vale a pena esperar uma vida. Mesmo que seja uma vida cheia de pequenas eternidades, como são as nossas.

Nessa noite tinha ficado acordada para ver a lua a pôr-se no mar.
Esse sonho parece-me agora como o reflexo da lua. Foi algo que atravessou sem esforço a distãncia da escuridão para chegar aos meus pés.

Alta e branca, uma máscara de porcelana vista de perfil, um reflexo forte.
Cada vez maior, mais baixa e amarela, já sem reflexos, como uma metade de sol a boiar entre duas escuridões simétricas e inseparáveis...vermelha como uma gota de sangue. Incompleta como metade de um coração e depois o vazio.

Quando vinha para casa parei numa estrada escura e lembrei-me de que, quando já só resta o vazio de um horizonte escuro só nos resta olhar para cima e deixar-nos ser absolutamente arrebatados pelo Céu.
Nos momentos breves em que olhei o veludo azul e negro, os seus milhares de diamantes, fui surpreendida por um dejá vu delicioso na forma de uma estrela cadente.

Cortou o espaço com a rapidez de uma lágrima.

Para obedecer às regras da humanidade fechei os olhos e desejei.

Cheguei à minha rua naquelas horas em que as cidades novas ainda são mudas. Do outro lado um cão que abanava a cauda, ao espreguiçar-se e boçejar tentou latir...o que resultou num uivo e fez o meu riso ecoar na rua vazia.

Apontei algumas palavras enquanto me despia, a ultima das quais, leio agora, foi a palavra ''sonhar'', sublinhada.


Aware
publicado por aware às 15:39
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1 comentário:
De Eugénia a 1 de Setembro de 2006 às 16:18
há algum tempo que não visitava o meu blog, reli um texto e vi uma mensagem que trocamos, lembrei-me de te visitar. Tens uma prefundidade muito bonita, estás cheia de feminino.... Trázes uma grande magia aos momentos.
Gosto muito da forma como te lanças para o mundo exterior.
Um grande abraço!

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