Domingo, 15 de Outubro de 2006

Infinito



Porque duvido?

Porque não posso amar sempre e porque me silencio?

Antes não duvidava, isso fazia-me feliz e infeliz de uma maneira invisível.
Assim que soube que amava comecei a duvidar...e por essa altura já não podia duvidar de mim própria. Demasiado tinha acontecido, já tinha mergulhado as mãos no meu próprio corpo na procura do que me matava...já o tinha. Começava a ter vislumbres de mim.

E o que vi fez-me medo.

De tantas maneiras diferentes, com um poder tão profundo, tão real e tão inabalável que pela primeira vez em muito tempo pensei que ia enlouquecer...Mesmo aí não duvidei de mim, porque não consegui duvidar do Amor...e terrívelmente foi nessa mesma altura que vi pela primeira vez um mundo sem amor.

Um mundo sem ti.

Foi aí que comecei a calar-me. A calar a falta que sentia de viver, a calar o horror que me consumia na solidão. Mas mais importante ainda, comecei a carregar oculta uma verdade importante, a mais importante.
Só lhe tinha visto um reflexo no meio de um barulho ensurdecedor, não mais de alguns segundos e mesmo assim soube que revelar essa verdade seria a responsabilidade mais importante e inalienável. Por isso mesmo começei a perguntar: porquê duvidar? Quase imediatamente tudo isto comecou a transparecer para a realidade, impressionando tudo, mudando tudo.
Tinha esquecido de que as pessoas se revelam pelo que querem esconder.
Por isso comecei a temer o mundo. Porque já não conseguia deixar de me revelar, a verdade é maior que todos nós. Tal como o Amor.
Tudo isso me surpreendeu, como o mundo surpreenderia um cego que começasse a ver.
Como tudo isto tinha estado sempre à minha frente...Um mundo vazio de pessoas que me vissem, mais do que isso que acreditassem em mim. Como tinha ficado tanto tempo no desconforto de uma invisibilidade que não me cobria  completamente,como um cobertor pequeno demais para alguém que  só quer adormecer no  frio.

Impossível...e no entanto haviam excepções.

Tu foste uma delas. O que não consegui distinguir logo foi que não os sentia. Que tudo o que foi se tinha cravado em tudo o que é. Que o esforço tinha apagado a capacidade de sentir os outros...de acreditar neles. Inacreditávelmente, paradoxalmente! isso dava-me um poder objectivo enorme de ver as pessoas. Vê-las e saber o que está para lá dos olhos, ver a cara do relógio e os mecanismos ao mesmo tempo. Esse foi um grande momento...quando soube que para além de ter perdido mundos, também tinha ganho mundos. Agora conseguia ver...
Conseguia ver mas o hábito de esticar as mãos tinha permanecido, tinha de tocar para acreditar. Essa é a dúvida que permanece.

Porque muitos são os que não veem, ainda mais aqueles que não se dão e mais ainda aqueles que não admitem...que tudo isto seja verdade.
É uma luta que ninguém ganha, a verdade é maior que tudo. Não são as mentiras que nos fazem sofrer, são as verdades. Não digo isto a plenos pulmões, embora muitas vezes me tenha apetecido. Agora, se pudesse sussurava-o, mesmo tendo desejado ruas infindas para o poder gritar. Por isso a realidade me parece tão estranha agora...sabendo enquanto passo por ruas de gente silenciosa que não existe uma alma que não possua a mesma verdade.
Parece viver dentro de todos como um segredo vergonhoso, pois acredito que se apontasse o dedo a alguém e lhe dicesse ''Sabes do que falo!'' esse alguém só muito dificilmente o admitiria. Isto quando sei que é o desejo mais real de todos dizê-lo cantando a toda a gente.
Por isso duvido...porque estico os dedos na escuridão, e raramente sinto outros dedos que não os meus. Ando esticando os braços para o mundo, sempre com o terror de que mos cortem e sempre expectante, anticipando o dia em que sinta outros que os segurem.
Por incrível que pareça é essa mesma dúvida a verdadeira beleza que nos faz viver e querer-nos uns aos outros, a dúvida tem de existir para que tenhamos a vontade.

Uma vontade de ser e de alcançar.

O círculo fecha-se, ainda bem que duvidamos, não podemos realmente acreditar em tudo à primeira vista...a beleza pode estar no primeiro olhar mas a verdade está no segundo. O silêncio o medo e até mesmo a morte são precisamente aquilo que precisamos para conseguir sentir o que é estar aqui agora. Duvido para alcançar-te e silencio-me para me ouvir...por isso duvida também e abraça-me porque se estiveres dentro de mim conseguirei ouvir-te e também tu me conseguirás ouvir porque estarei dentro de ti e no teu silêncio ouvir-me-hás.

A realidade é tudo o que sobra e é o mais importante...tal como tudo o que não se vê.


Aware
publicado por aware às 20:47
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6 comentários:
De Maria Papoila a 16 de Outubro de 2006 às 18:27
Aware adorei este texto Infinito! A verdade e a realidade confundem-se mas só se sentem na dúvida e no silêncio e aí se olhar para dentro de mim vou encontrar quem amo.
Beijo
De cleo a 16 de Outubro de 2006 às 19:57
Antes de mais, obrigada pela visita nos meus ecos... agora silenciados.
Este texto, além de estar muito bem escrito, parece que foi escrito por alguém que conheço!...
Acredito, que é isto que essa pessoa também sente.
Mas a dúvida é corrosiva... mata os outros sentimentos!
É preciso acreditar para se poder confiar, e se a dúvida permanece... não há lugar para a confiança!

Beijos da Medusa ou da cleo... como preferires
De jkanoni a 16 de Outubro de 2006 às 21:25
Dúvidas que fazem incessantemente procurar certezas: procurá-las no dia-a-dia, numa cegueira de braços estendidos num olhar fixo no infinito; num sentir do toque quente de outras mãos no degelo das nossas; no aprofundar de olhares e no sentir do gosto ácido da mágoa na doçura de verdades; gritar imensos silêncios nos alvores duma fria e deserta madrugada...
Essa é a beleza e o encanto da vida - essa procura constante do amor: a felicidade de o sentir, de o conquistar e de o viver; não de o encontrar – isso é demasiado fácil e fugaz...
Consumir e extinguir cada dia como se fosse o último, quando a lua afaga o azimute e se prepara para dormir, num último suspiro...
Reacordar para um novo dia, no grito doloroso de voltar a encher os pulmões de ar, no fluir do sangue a despertar todos os sentidos, como um revolvêr centrífugo das próprias entranhas...
E quando a morte chegar, fechar os olhos e abraçá-la num extremo cansaço e merecido descanso...
A serpente que morde a própria cauda: sempre!
De Samuel a 16 de Outubro de 2006 às 23:04
Intenso, muito intenso...de uma profundidade nua e crua.
Quem disse que amar era fácil?
Amar é o maior risco que podemos correr, o amor contém em si próprio o elixir e o veneno.
A beleza vive na dúvida, de esticar os braços na escuridão, mesmo sabendo que os podem cortar ou simplesmente não agarrar nada mais que ar. Todos saboreamos o terror do desconhecido, mas é ao arriscar que provamos a todos e a nós próprios que ainda acreditamos em alguma coisa...na força de amar.
Um abraço grande*
De Vincent a 18 de Outubro de 2006 às 23:56
Tudo o que vives, sentes e vês faz parte do enredo. Estuda os personagens. Na segunda parte do filme tudo irá fazer sentido
De Bubbles a 19 de Outubro de 2006 às 23:28
Não, amar não é fácil e a realidade é, por vezes, dúbia. Mas nunca podemos desistir...
Obrigada por teres passado no meu cantinho. As tuas palavras foram marcantes :)
Beijinho

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