Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2006

Não sei mais que isto...

acordadas.jpg

Acordo...sento-me na cama,deslizo uma perna e depois a outra,ponho os pés no chão.

Sinto frio.

Visto um robe,abro a persiana e sento-me em frente da janela.Na luz branca e imperdoável...como se de um muro se tratasse.
Sinto-me gasta...toda a minha cara gasta,os meus olhos vazios.
Como um pedaço de pano que alguém lavou num rio...esfregando-o nas pedras.Como uma criança envergonhada.Faz-me lembrar...pêssego em calda.

Uma enorme lata de pêssego em calda...eu devia ter cinco ou seis anos.Descobri no armário uma lata que a minha mãe tinha comprado e perguntei-lhe se a podia abrir...até hoje me lembro da voz dela ''Podes mas tem cuidado não te cortes...''
Isto até hoje ecoa e se repete em mim,oiço-a uma e outra vez na solidão do meu pensamento.

Disse-lhe ''Sim,sim!''...busquei o abre latas na gaveta e começei a girá-lo...a ver a lata a girar e a tampa a separar-se.Conseguia cheirar a doçura da calda...
De repente parei,embrulhei numa mão com a outra e saí da cozinha.
Fui esconder-me atrás da porta do meu quarto,quando penso nisso hoje sorrio.Mas na altura chorei agarrada ao meu indicador esquerdo.
Pouco depois oiço a minha mãe a perguntar ''...que carreiro de sangue é este?'' e vejo a mão dela abrir a porta.''Que estás a fazer aí?''

O que me doeu não foi o corte.

Foi a vergonha,foi a desilusão...e hoje outra vez me embrulho e me escondo.

...sem desculpas.

Aware

publicado por aware às 15:25
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6 comentários:
De a 16 de Fevereiro de 2006 às 21:40
Adorei-te ler (os anteriores tb...). Gosto imenso da forma como transpoes os teus sentimentos e descreves emoções... e relativamente a este teu post... não é caso para isso... de sentir vergonha ou culpa!!!! BeijinhosAran_aran
(http://capricornioemim.blogs.sapo.pt/)
(mailto:aran_aran@sapo.pt)
De a 16 de Fevereiro de 2006 às 03:40
Aware, a imagem que escolheste reflecte bem a tua analogia tão simples e inocente.. mas deliciosa.
Sou sincero, adorei e voltei a ler novamente para saborear novamente este texto tão bem conseguido.
Já nos vais habituando mal;)
Por mais profundas que as feridas sejam.. quando sentimos aquele abraço, aquele carinho, essas feridas tornam-me em borboletas que pousadas no abraço.. deixam de querer voar para ali poderem ficar..sempre.
Beijo amiga****Ser-se em Palavras
(http://www.longtakk.blogs.sapo.pt)
(mailto:golden_sky_@hotmail.com)
De a 15 de Fevereiro de 2006 às 22:48
não há culpa nem vergonha no teu acto. tratava-se de pura inocencia. beijo linda adoro-te never forget***Karura
(http://www.blackpenguin.blogs.sapo.pt)
(mailto:anywherebuthome@gmail.com)
De a 15 de Fevereiro de 2006 às 22:11
Mais importante que os cortes...por mais fundos que sejam...é ter alguém que nos encontre onde nos escondemos,que nos desembrulhe e nos abraçe.Mesmo quando nos enganamos...*aware
(http://Pilgrimhearts.blogs.sapo.pt)
(mailto:jani_fullmoon@hotmail.com)
De a 15 de Fevereiro de 2006 às 19:10
Aware,
Simplesmente fantástica esta analogia que fazes aqui. Por vezes é mesmo assim, o que nos doi não são propriamente as feridas. Bjs.Art Of Love
(http://artofloveabout.blogspot.com/)
(mailto:bizaazul@iol.pt)
De a 15 de Fevereiro de 2006 às 16:28
Não foi com uma lata de pêssego em calda. Foi com uma faca e com um prosaico pão. Todos os dias reparo na cicatriz. Mas que diabo, continuo a cortar o pão da mesma forma! Porque não? É o meu jeito de o fazer. Há quem me diga que devia cortar de outra forma. Mais segura. Mas eu gosto assim. Compensa de longe o risco. Desde que seja meu. Se correr o risco de magoar o dedo de outra pessoa aí é diferente. Aí embrulho-me...Vincent
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(mailto:vincent-x@sapo.pt)